DE 1500 ATÉ A CANONIZAÇÃO DOS SETE SANTOS FUNDADORES
Para
os Servos de Maria o século XVI foi
um século complexo e atormentado, pois a Ordem também se ressentiu
dos acontecimentos que
marcaram a
vida da Igreja neste
período (a
Reforma protestante em
1517; o
Concilio de Trento
em
1545-1563; a contra
reforma ou reforma católica etc.). Quanto à Ordem, que no
século XV
tinha sido governada por seis
priores
gerais, no período
que vai da morte de
Antônio
Alabanti (1495) até a de Ângelo Maria Montorsoli (1600), teve à sua frente vinte
priores gerais, mais da metade deles
nomeados
pelo papa.
Além do mais, nos primeiros anos
do século XVI,
a Congregação
da Observância
entrou em acentuado
declínio, vindo a
reincorporar-se
plenamente à Ordem em 1570.
Em 1505 morreu em Milão o bem-aventurado João Ângelo de Milão, considerado um dos pioneiros no ensino do catecismo às crianças. Decorridos poucos anos da Reforma Luterana, começaram a ser suprimidos os conventos da Ordem na Alemanha. Em 1833, o prior geral Jerônimo Amidei de Lucca lançou veemente apelo a toda a Ordem para a reconstrução de Monte Senário.
A Ordem marcou presença no Concilio de Trento através dos freis Agostinho Bonucci, prior geral de 1542 a 1553 e Lourenço Mazzocchio, prior geral de 1554 a 1557. Concomitante ao Concilio procedeu-se à revisão das Constituições da Ordem, primeiro em 1548 (capítulo geral de Budrio), depois em 1556, 1569, e finalmente, em 1580, sob o governo geral de Tiago Tavanti.
No final do século, governaram a Ordem duas eminentes figuras, frei Lélio Baglioni e frei Ângelo Maria Montorsoli. Este não deve ser confundido com seu tio, o famoso escultor João Ângelo Montorsoli (1507-1563). Frei Lélio Baglioni, prior geral de 1590 a 1597, reformou a Ordem através de uma série de iniciativas concretas, inclusive com a implantação, em 1593, da “Congregação Eremitica de Monte Senário”. A celebre “Carta Espiritual”, escrita por frei Ângelo Maria Montorsoli quando vivia como eremita em uma cela do convento da Santíssima Anunciada de Florença, impressionou tanto o papa Clemente VIII, que este obrigou frei Ângelo Maria Montorsoli a abandonar sua voluntária reclusão e o impôs como prior geral da Ordem em 1597. Vale lembrar que em 1570 a Congregação da Observância volta a fazer parte da Ordem.
No final do século XVI, os conventos dos Servos eram 240, e os frades, mais de 1800.
O século XVII é principalmente lembrado na Ordem pelas peripécias que envolveram a vida de frei Paulo Sarpi (1552–1623), sem dúvida um dos mais célebres frades da Ordem. Frade exemplar, foi fortemente hostilizado pela Cúria Romana, primeiro como Teólogo da Sereníssima República de Veneza, e depois, por longo tempo, mesmo depois da sua morte, devido à sua obra intitulada “Historia do Concílio de Trento”.
Em
1613,
começou a partir de
Innsbruck e depois em todos os conventos da Áustria, a chamada Observância
Germânica, apoiada
por Ana Catarina Gonzaga e que
teve à sua frente
inicialmente três eremitas vindos de Monte Senário. A observância Germânica,
como expressão particular da vida dos Servos de Maria,
perdurou até
1908. 
Com a Constituição “Instaurandae Regularis Disciplinae” de 1652, o papa Inocêncio X, depois de ter feito um rigoroso recenseamento das Ordens Religiosas, impôs-lhes uma reforma forçada. Para os Servos de Maria isso significou a supressão de 102 dos 261 conventos existentes. Na realidade seriam suprimidos 84 apenas. Os anais da Ordem consideram este evento um enxugamento, mas não foi assim. Neste século ampliou-se Família Servita (monjas e Ordem Terceira). Fizeram-se as primeiras tentativas de expansão dos Eremitas de Monte Senário (1614–1623). Iniciou-se em 1618 a publicação dos anais da Ordem. Renasceram os estudos e, em 1666, abriu-se em Roma o Colégio Gandavense, com poderes para conferir títulos acadêmicos em teologia. Herdeira direta do Colégio Gandavense seria depois a Pontifícia Faculdade Teológica Marianum. Em 1671 foi canonizado São Felipe Benizi, evento esse celebrado na Ordem com muita solenidade. A influência de Monte Senário na vida da Ordem continuou também nos oito anos de governo do venerável frei Júlio Arrighetti (1622- 705), prior geral de 1682 a 1700.
Figuras
ilustres da Ordem e da Família
Servita no século XVII
foram os analistas Arcângelo Giani (+1623), Luis M. Garbi (+1722) e Plácido
Bonfrizieri (+1732).
Acrescentem-se
frei
Querubim Ranzani de Reggio Emilia (+1675), autor de um “relógio eterno”
programado até o ano de 2000; outros artistas como João Ângelo Lottini, Arsênio
Mascagni, autor de afrescos no castelo e na catedral de Saltzburgo, o pintor
João Batista Stefaneschi, e o “Porteiro Santo”, que fora coronel do exercito
francês, Pedro Paulo Perrier Dupré. Devem ser lembradas também as monjas
claustrais Maria Benedita (Elisabete) Rossi (+1648), fundadora do Mosteiro de
Santa Maria das Graças de Burano (Veneza) e Arcângela Biondini, fundadora do
Mosteiro de Arco.
O século XVIII, na vida da Ordem, traz aspectos contrastantes. Na primeira metade do século, os Servos atingem o mais alto índice numérico, beirando os 3000 membros. No final do século, porém, e na primeira metade do século seguinte, pela supressão a que a Ordem foi submetida, ocorreria o fechamento de grande parte dos conventos e a dispersão da maior parte dos frades.
A primeira metade do século caracteriza-se pela sucessão de decretos em defesa dos estudos. Além disso, cresce o culto dos santos e bem-aventurados da Ordem, graças à canonização de São Peregrino Laziosi em 27 de dezembro de 1726 e de Santa Juliana em 1737.
Em 1769, veio à luz o “Methodus studii philosophici et theologici” de frei Francisco Raimundo Adami. Este programa de estudos pode ser considerado uma verdadeira “Ratio Studiorum” na Ordem.
Infelizmente, nos últimos trinta anos deste século até a tomada de Roma em 1870, a Ordem, na Europa, foi submetida a uma série de supressões de conventos que a deixaram quase dizimada. Cronologicamente aconteceu primeiro a supressão no território Austro-Húngaro, vieram depois as supressões de Napoleão Bonaparte, e por último, as levadas a cabo na Sardenha e na Itália Unida. Foram estas últimas supressões que tornaram vãs as tentativas de retomada realizadas pela Ordem depois de 1815 (Congresso de Viena). Acrescente-se a isso que, em 1778-79, por disposição papal, foi suprimida a Congregação Eremítica de Monte Senário.
Figuras notáveis
do século XVIII
foram os frades Domingos M. Fabris e Sóstenes
M. Viani, que participaram,
em 1719,
da
delegação enviada a China,
chefiada por
Ambrósio
Mezzabarba para resolver
a questão dos ritos chineses.
Muito
interessantes são as “Memórias do segunda legação apostólica enviada a China por
Sua Santidade
e nosso senhor o papa Clemente XI no ano da Salvação de 1719”,
escritas por frei Sóstenes M. Viani.
Figuras singulares deste século foram também o primeiro Servo de Maria brasileiro frei Hugo (Antonio) M. Dias Quaresma, que obteve de Clemente XII constituições especiais para fundar uma Ordem Terceira Regular dos Servos de Maria no Brasil; frei Felipe M. Serrati que, entre 1738 e 1744, tentou fundar a Ordem na China; Carlos Francisco M. Caselli, prior geral, consultor teológico nas tratativas de concordata entre Napoleão e a Santa Sé, depois Cardeal; frei Amadeu M. Bertoncelli, renomado pregador, mais tarde acusado de espionagem e fuzilado por ordem de Napoleão em 1809. Lembramos também as claustrais Maria Luísa Mastursi, ligada à fundação do mosteiro de Roma, hoje em Colle Fanella, e Maria Madalena de Jesus (Piazza), fundadora do mosteiro de Montechio Emilia.
Século XIX.
Para quem estuda
este século da historia
dos Servos de Maria,
o
primeiro dado que chama a
atenção é que em 1815
começa
a retomada da Ordem, embora ainda precária.
O final do século XVIII e
o começo do século XIX
registram, pelo
contrario, uma
retomada concreta e duradoura, apesar de inicialmente lenta,
levada adiante progressivamente
até os anos sessenta do século XIX.
Na
metade deste longo período de tempo (1815–1964) foram canonizados os Sete Santos
Fundadores (1888).
Para uma Ordem de dimensões pequenas com a nossa, já duramente provada pelas supressões Josefina e Napoleônica, com a maioria dos seus conventos situados na Itália, as leis supressivas do Reino de Sardenha e do Governo Unitário Italiano entre 1848 e 1867, foram quase fatais. Uma carta do prior geral, frei Bonfilho M. Mura, escrita em 1863 a todos os provinciais italianos, convocando-os para a necessidade de fazer alguma coisa, fala de “questão de vida ou de morte”. Alias, foi o próprio frei Bonfilho M. Mura que, em 1864, enviou os frades Filipe M. Bosio e Agostinho M. Morini para fundar a Ordem na Inglaterra. O mesmo frei Agostinho Morini, em 1864, fundaria a Ordem também nos Estados Unidos da América.
Neste ínterim, foram retomadas na Ordem as negociações para a canonização dos Sete Santos Fundadores. Leão XIII, por decisão própria, em 1884, estabeleceu que os Sete Fundadores podiam ser canonizados como se fossem um só, sendo, pois, necessários quatro milagres apenas. A canonização teve lugar em Roma em 15 de janeiro de 1888. Estava presente na celebração também frei Antonio M. Pucci, que morreria quatro anos depois e que também seria canonizado em 1962.
O evento da canonização, que ocorria num momento em que as leis hostis aos institutos religiosos na Itália entravam em gradual declínio, foi para toda a Ordem uma autêntica injeção de esperança. É verdade que a canonização fora levada a bom termo no governo geral de frei Pedro Francisco M. Testa (1882–1888), mas o longo caminho para chegar até ali havia sido preparado pelos priores gerais frei João Ângelo Mondani (1868–1882) e, talvez, pelo próprio frei Bonfilho M. Mura, ligado a Leão XIII por laços da amizade.
No século XIX foram fundadas várias Congregações religiosas de irmãs Servas de Maria que pediram para ser agregadas à Ordem.