DOCUMENTOS VARIOS

Benedictus episcopus, servus servorum Dei,
dilectis filiis ... generali et universis prioribus et fratribus
Servorum sante Marie ordinis sancti Augustini,
salutem et apostolicam benedictionem.
Dum levamus in circuitu oculos nostros et gregem dominicum nobis, licet immeritis, divina dispositione commissum, undique, iuxta pastoralis officii debitum, contemplamur, vigilem, quantum nobis ex alto permictitur, curam libenter impendimus ut cultores vinee Dei Sabaoth sic cultui salutis intendant, quod eadem vinea palmiter diffusos extendens salutarium producat fructuum ubertatem. Et licet erga singulos cultores huiusmodi, personas videlicet ecclesiasticas, apostolica sollicitudo versetur, erga tamen viros religiosos qui contemplationi celestium mundanis relegatis illecebris pie vite studio sine intermissione desudant, eo propensiorem nos decet diligentiam adhibere, quo ipsi pro religionis favore sunt amplius apostolicis presidiis confovendi. Sane vos qui ordinem sancti Augustini per sedem apostolicam approbatum profitemini et servatis, ex devotionis affectu quem geritis ad beatam Mariam virginem gloriosam, assumpsistis vobis vocabulum ab eadem, vos servos eiusdem virginis humiliter nominando, dictumque ordinem sancti Augustini nichilominus iuxta pias et honestas institutiones vestre regule in honorem ipsius virginis editas laudabiliter servastis hactenus et servatis, ac vobis per specialia privilegia dicta sedes indulsit quod celebrare possitis capitulum generale ac in eodem capitulo priorem vobis generalem eligere, qui in fratres vestri ordinis correctionem et alia que ad suum spectant officium libere valeat exercere, quodque ad sepulturam possitis recipere illos qui apud loca vestra elegerint sepeliri. Ex quibus clare inspicientibus satis innuitur dictam vestram regulam per eandem sedem existere quodammodo confirmatam. Nos autem, qui ad virginem ipsam dominam nostram libenter devotionem quam possumus exhibemus, nolentes quod aliquis contra vos et regulam ipsam quicquam possit detractionis impingere, quin eadem regula plenam habeat apostolici muniminis firmitatem, ad omnem hesitationis materiam circa hec de quorumvis animis amovendam, vestris supplicationibus inclinati regulam et eius institutiones predictas expresse auctoritate apostolica confirmamus et etiam approbamus et presentis scripti patrocinio communimus, eamque vobis concedimus, decernentes ipsam per vos fore perpetuis temporibus inviolabiliter observandam. Nulli ergo omnino hominum liceat hanc paginam nostre confirmationis, approbationis, concessionis et constitutionis infringere, vel ei ausu temerario contraire. Si quis autem hoc attemptare presumpserit, indignationem omnipotentis Dei et beatorum Petri et Pauli apostolorum eius se noverit incursurum.
Datum Laterani, tertio idus februarii, pontificatus nostri anno primo.
2. Carta do prior geral aos irmãos e irmãs da Familia dos Servos de Maria por
ocasião dos 700 anos da aprovação definitiva da Ordem
Uma família com futuro
Depois de 700 anos de existência
(Bula Dum levamus de Bento XI, 1304-2004)
Ave Maria
Quando fui solicitado a escrever algumas reflexões sobre o tema: "A Ordem dos Servos de Maria, uma Ordem viva depois de 700 anos", logo pensei em outro título, isto é: "Uma família que tem futuro", não simplesmente como uma realidade que respira e vegeta, mas antes como algo que tem futuro, que caminha, que luta, que acredita, que sua, que tem esperanças e sonhos, apesar das dificuldades óbvias, da sua realidade estatística e dos seus problemas concretos. Depois de dois anos de serviço à Ordem como prior geral desta pequena e grande família, procurarei nestas páginas compartilhar convosco algumas reflexões que pude colher no meu ministério, visitando as jurisdições da Ordem, participando dos capítulos provinciais eletivos de 2003, mantendo encontros com as monjas de clausura e as irmãs da Ordem, com a Ordem Secular, os Institutos Seculares, as fraternidades, as diaconias leigas e com muitos leigos que compartilham com alegria e com fé o nosso carisma, a nossa espiritualidade, os nossos "sonhos" e - por que não? - também os nossos problemas e insucessos.
Quero logo dizer que não pretendo fazer uma reflexão de caráter histórico, nem discorrer sobre muitos temas interessantes do nosso patrimônio espiritual, cultural, eclesial..., mas desejo simplesmente "bater um papo" convosco sobre aquilo que vi, ouvi e experimentei, sobre aquilo em que recebemos algumas críticas, sobre alguns sinais de vitalidade e outros que, pelo contrário, são sinais de "morte" em nossas comunidades, sobre as possibilidades e as perspectivas da nossa família.
Procuremos, pois, ver o que emerge disso tudo. É meu intento que essas colocações se situem num nível de fé e de esperança, de iluminação e de avanço, de confiança e de fraternidade, de proximidade a todos e de acompanhamento, de maneira que, juntos, possamos construir e seguir em frente, discernir e realizar, ver e julgar, mas sobretudo "implementar" os projetos que Deus traçou para todos os irmãos e irmãs Servos de Maria, para os quais o passado, o presente e o futuro representam um motivo de orgulho, de gratidão, de desafio e de genuína participação no desígnio salvífico de Deus.
1. Nosso carisma: motivo de orgulho
Um tema constante e muito repetido em nossos escritos fundamentais, históricos e litúrgicos, é sem dúvida a constatação e a convicção de que o nosso patrimônio é de altíssimo valor e atualidade. Pessoalmente, jamais duvidei disso. O carisma da família dos Servos de Maria, que nasce com os nossos "primeiros irmãos-pais", é uma pérola preciosa. Não há dúvida - como afirma a teologia da vida consagrada - que cada carisma é um dom do Espírito que enriquece a Igreja. Nosso último capítulo geral (2001) reconhece isso quando fala das prioridades da caminhada da Ordem para o sexênio 2001-2007 (cf. Capítulo Geral de 2001, nº 13).
Mas nós que herdamos este tesouro, que fazemos? Como o partilhamos? Como nos empenhamos para torná-lo conhecido? Às vezes, damos a impressão que é temos dificuldade de fazer alguma coisa ou que não temos forças para fazê-lo; que não temos os meios ou que toca a outros fazê-lo. Tudo isso pode levar-nos a uma resignação infundada, ao medo de arriscar, à indiferença, à passividade, a uma atitude de "humildade covarde", ou então a fugir para o comodismo do nosso "lar, doce lar".
Penso que a lembrança do sétimo centenário da aprovação definitiva da nossa Ordem pelo papa Bento XI, ocorrida em 11 de fevereiro de 1304, deve levar-nos a refletir sobre esse momento feliz das nossas origens, um momento maravilhoso para a nossa família. Penso em nossos primeiros "irmãos", na sua docilidade à voz do Espírito que os conduzia por caminhos inesperados, no seu filial e intenso amor à Mãe de Jesus, que eles escolheram como sua mãe, companheira e guia na busca de Deus e no encontro com os irmãos. Não podemos deixar de pensar no seu itinerário de formação percorrido na solidão do Monte Senário, na sua luta para morrer para si mesmos a fim de renascer como homens espirituais dedicados inteiramente a Deus e à Igreja. Penso no seu contínuo "subir e descer" o monte como testemunhas coerentes das "coisas do céu" e das "coisas da terra", quais autênticos "arautos" do Evangelho da paz e da misericórdia. Penso na amizade que os unia e na sua grande humildade, que nada tem a ver com a uniformidade estéril. Vivendo unânimes e concordes, sempre voltados para Deus, realizaram um sonho raro na Igreja: o de ser um comunidade inteira de santos.
Talvez esse seja o desafio que hoje devemos assumir. A nossa identidade é algo mais que uma idéia abstrata que se prolonga através dos tempos. A nossa identidade é um modo de ser, de viver, de amar, de chorar, de lutar, de crer, de esperar, de compartilhar, de abençoar. A nossa identidade é vida. Só podemos orgulhar-nos do nosso carisma quando formos "geradores" e portadores de vida. Se nos comportarmos diversamente, em vez de nos orgulharmos do carisma e do patrimônio herdado, falseamos o sentido da nossa vida de Servos de Maria, que é ser servidores daquilo que há de mais sagrado, isto é, servidores da vida.
2. Sinais de vitalidade e de novidade
Semanas atrás, respondendo a um questionário em preparação ao Congresso Internacional da Vida Consagrada, que se realizará em novembro de 2004, tive a oportunidade de refletir sobre vários aspectos da vida consagrada em geral. No questionário, falava-se de desafios e oportunidades, de sinais de vitalidade e de novidade, da vida religiosa do futuro, de obstáculos, etc... Devo confessar que, ao redigir as respostas de caráter geral ou global, eu pensava também no âmbito mais circunscrito da nossa Família de Servos de Maria. Um duplo exame de consciência, pois, que me levantava interrogações diante das quais eu experimentava estranhamente um sentido de impotência e, ao mesmo tempo, uma forte sensação de esperança.
Certamente, o dom da nossa vocação é um mistério. E esse mistério se torna significativo somente quando obedece ao chamado de ser, na sociedade e na Igreja, portadores de vida, em todas as suas manifestações.
E uma vez mais meu pensamento retorna às nossas origens, à figura de São Filipe Benizi, cuja ação foi decisiva para "salvar" a Ordem e dar-lhe vida. Ele foi um digno discípulo dos nossos primeiros irmãos-pais, dos quais aprendeu a humildade e a santidade de vida, o espírito de penitência e o zelo apostólico. Filipe nos ensina que a santidade não nos separa do mundo, nem nos afasta das coisas temporais. Ele soube manter a união com Deus encontrando-se com os pobres, servindo os seus irmãos, resolvendo os problemas da nossa Ordem nascente. Ele estava convencido de que a verdadeira sabedoria nasce em longos períodos de solidão, de oração e de meditação e na busca de Deus.
E que dizer dos outros? De São Peregrino, dos bem-aventurados Joaquim e Francisco de Sena, Boaventura de Pistóia, Ubaldo de Sansepolcro ou Tiago o esmoleiro? Deste último, lembraremos em 2004 o sétimo centenário de morte, assassinado que foi por ter defendido os direitos dos pobres. E o que dizer de Santa Juliana e de todos os outros discípulos, cuja santidade mostra que, acima de qualquer coisa e para além das dificuldades provocadas por circunstâncias históricas aparentemente adversas e insuperáveis, devemos sempre buscar a Deus com firmeza e otimismo, pois disso dependerá o futuro da nossa Família.
Partindo das nossas origens, diante da pergunta sobre os possíveis sinais de vitalidade que um carisma antigo pode ter no mundo moderno (a pergunta é minha e é feita à nossa Família OSM), poderíamos dar as seguintes respostas: a solidariedade entendida como simplicidade de vida e atenção ao mundo que nos rodeia; o desejo sincero de requalificar a vida comunitária (fraternidade e amizade); a fidelidade à busca de Deus, da sua Palavra, da oração e do silêncio; a solidariedade com os mais pobres e os explorados; o compromisso com a justiça e a paz; o trabalho realizado em colaboração com os leigos; o mundo da cultura, do estudo e da pesquisa; a inserção no mundo juvenil; a inculturação, etc. Em nossas origens, encontramos muitos exemplos que podem nos iluminar quando se trata de pôr em prática tudo isso.
3. Qualidade da vida comunitária
Não se trata só de falar de "colunas" de identidade, de instâncias, ou de associar ao clássico trinômio "fraternidade, dimensão mariana e serviço" - com o qual muitas vezes nos identificamos e nos apresentamos -, outros valores como a misericórdia, a justiça, a qualificação cultural e intelectual, a vida da beleza, etc. Trata-se fundamentalmente de coerência, de credibilidade, de experiência, de fé, de convicções, de integração entre atitudes e serviço, entre palavra e vida, entre proposta e testemunho.
Lembro que alguns anos atrás se falava muito de reafirmar a nossa consagração e de requalificar o nosso serviço; da necessidade de saber donde partimos para saber aonde queremos chegar. Se nos dizia que os nossos "eu" e os nossos "nós", reais ou ideais, deviam convergir para um ponto de encontro e não entregar-se a uma busca incessante inútil e vazia. Hoje estamos convencidos que a qualidade da vida comunitária deve crescer. O capítulo geral e as duas últimos reuniões dos priores provinciais com o conselho geral o têm defendido enfaticamente. O diálogo, o capítulo conventual, a colegialidade, os projetos pessoais e comunitários devem promover a qualidade da vida comunitária. Não importa se nossas comunidades são formadas de frades idosos ou de jovens, se são comunidades paroquiais ou de inserção, se são modernas ou tradicionais. Queremos gente satisfeita, contente, frades entusiastas e positivos, irmãos críticos e desejosos de seguir em frente. Como é triste ouvir as lamentações de comunidades descontentes e fuxiqueiras, comodamente resignadas ou acomodadas. Parece que esqueceram sua razão de ser, seu dinamismo profético, sua autêntica dimensão mariana baseada no "sim", no "fiat" que é, acima de tudo, disponibilidade e abertura à vontade de Deus.
A qualidade da vida encontra obstáculos que devem ser combatidos, como, por exemplo, os "fuxicos" que criam mal-estar, os preconceitos que anulam a confiança, que não "bendizem" os outros, isto é, que não "dizem o bem" dos outros. Antes de falar e de criticar, devemos pesar bem o fundamento, a bondade e a utilidade das nossas palavras. Importa evitar todo tipo de murmuração, toda maledicência. Devemos insistir sobre o que nos une, sobre o trabalho em grupo, sobre as metas comuns, sobre a confiança recíproca. O futuro da nossa família está nas comunidades, pois são elas que transmitem o carisma, que projetam o nosso estilo de vida, que mostram a nossa família, que testemunham quem somos e o que fazemos. São justamente as comunidades convictas e felizes que tornam nossa família conhecida. Elas são, para o mundo de hoje e para o povo que vive ao nosso redor, o sinal mais palpável e mais compreensível do estilo de vida dos Servos de Maria. É no seio de nossas comunidades, como diz o artigo 10 das Constituições, que vivemos em busca da amizade fraterna, na doação e aceitação de cada pessoa, com suas qualidades e limitações. A glória de Deus não é só o homem que vive, mas a comunidade que vive, a comunidade amada com fidelidade nas horas alegres e nas horas tristes. É na comunidade que vivemos concordes e unânimes na oração, na escuta da Palavra de Deus, no partir o Pão Eucarístico e o pão ganho com o nosso trabalho.
E uma vez mais meu pensamento retorna às origens da nossa família. A aprovação da Ordem é para nós um apelo para retornar às origens, onde o ideal de vida dos Servos de Santa Maria foi vivido de maneira genuína. Um apelo para sermos como os primeiros frades, que buscavam o Deus de Jesus Cristo, e para vivermos o Evangelho "sine glossa", nós é feito em modo particular pelo capítulo geral de 2001. Primeiro, na mensagem que o papa nos enviou: "Sim, buscai o Senhor! Buscai a sua face (Sl 27,8). Buscai-o todos os dias desde a aurora (Sl 63,2), de todo o coração... Buscai-o com a persistência da Sunamite (Ct 3,1-3), com o estupor do apóstolo André (Jo 1,35-39), com o arrojo de Maria Madalena (Jo 20,1-18)". Segundo, nos textos capitulares que, assumindo as instâncias dos irmãos provenientes de todas as partes do mundo, traçaram o caminho a ser percorrido pela Ordem no início deste novo milênio.
Nossas comunidades devem ser mais pobres, mais solidárias, menos arrogantes, mais próximas do povo, mais bem inseridas, mais bem formadas, mais fiéis, mais coerentes, mais radicais a partir do Evangelho, mais proféticas e abertas aos sinais dos tempos, mais ecumênicas e mais colegiais. As primeiras comunidades dos nossos irmãos e pais atraíam vocações pela autenticidade do seu testemunho de santidade e pela qualidade de sua vida de oração e de serviço. Um verdadeiro desafio para todos nós que queremos manter vivo este carisma de fraternidade e de família.
4. Comunhão com a Família dos Servos e Servas de Maria
Alguns documentos da Igreja e do nosso capítulo geral de 2001 prenunciam um novo milênio marcado pelo signo da espiritualidade, do feminismo, da comunhão na diversidade, pelos sinais de abertura e de criatividade histórica do nosso carisma, concretizados no mosaico dos grupos que, no seio da Família Servita, se inspiram em Santa Maria (cf. Capítulo Geral de 2001, nº 86). É o momento da família. É o momento dos leigos. Também nossos queridos Sete Santos Pais eram leigos. A vida consagrada pertence à estrutura carismática e laical e não à estrutura hierárquica da Igreja. A expressão mais numerosa da nossa espiritualidade é laical. A Ordem Secular, os Institutos Seculares, as irmãs, as monjas, as diaconias, os amigos dos Servos, as fraternidades, etc., são formadas de leigos
Queremos revitalizar algo de muito valioso que nos pertence. Isso exige esforço. Às vezes, brecamos a caminhada. Há irmãos e irmãs mais sensíveis e outros que não o são. Estamos conscientes disso, mas nada fazemos, deixamos o trabalho para os outros, para aqueles "a quem toca". Confesso que creio vivamente nesta comunhão e considero urgente que se continue a trabalhar por ela. O recente congresso da UNIFAS foi considerado altamente positivo para a nossa Família. Colhemos depoimentos e avaliações carregados de esperança. O capítulo geral nos exorta a dar vida às UNIFAS regionais. Algumas começam a nascer, outras precisam ser revitalizadas. Toda a família deve empenhar-se mais nestas expressões de vida que garantem a comunhão, a continuidade, a presença dos Servos de Maria no mundo. Parece-me urgente dar a cada um o espaço devido e compartilhar esforços e ideais, alegrias e esperanças, momentos alegres e tristes do nosso cotidiano, como se faz numa grande família, cheia de carismas e riquezas, de "fundadores e fundadoras", de sonhos e projetos.
Por isso, de novo retorno à nossa história, às origens, aos primeiros passos da nossa família e ao caminho percorrido ao longo dos séculos. "O ideal dos Servos de Maria suscitou ao redor de nossas comunidades ou associou à Ordem muitas famílias e grupos que, como expressões particulares de vida consagrada e laical, compartilham da nossa única vocação" (Const. 5). "Os frades Servos de Maria, continuando uma antiga e viva tradição, formam uma só família com as religiosas e com os membros dos Institutos Seculares, da Ordem Secular e dos Grupos Leigos, que compartilham o mesmo ideal, os mesmos compromissos de vida evangélico-apostólica e a piedade para com a Mãe de Deus " (Const. 305)
Convido todas as expressões da Família dos Servos de Maria, todos os irmãos e irmãs da nossa família, a se empenharem na sensibilização, na conscientização e no engajamento em favor de uma causa que, sem dúvidas, supera as nossas pequenas experiências circunscritas; em favor de um carisma que se fundamenta numa expressão única de fé e num modo ou estilo característico de viver o Evangelho, isto é: ser irmãos e irmãs, Servos e Servas, que se inspiram em Maria; que se comprometem a manter com todas as criaturas atitudes de paz, misericórdia, justiça e amor construtivo; que procuram, como Maria, colocar-se aos pés das infinitas cruzes da humanidade para levar conforto e cooperação redentora; que querem ser servidores da vida e promotores da fraternidade universal e do espírito de família, que muito tem a dar ao mundo dividido e individualista, marcado pelo confusão e pelo peso do egoísmo e da violência. Ser família significa acreditar um no outro, compartilhar a fé e as dúvidas, viver unidos os dias luminosos e as noites escuras. Nossa família, nossa pequena e grande família, deve estar em condições de cantar o próprio Magnificat, de proclamar, no plural, as maravilhas que Deus opera em nossa vida.
5. O risco da aventura
Sabemos bem que o Evangelho é, em si mesmo, uma aventura; que nós, como anunciadores e arautos da Boa Nova, devemos estar dispostos a enfrentar uma aventura. Os Servos e as Servas de Maria, por sua própria natureza, justamente porque tem Santa Maria como sua inspiradora e imagem-guia, são homens e mulheres aventureiros, de linha de frente, de vanguarda. Maria aventurou-se proferindo um sim que a introduziu para sempre na "aventura de Deus". Um "sim" cheio de riscos e de realidades desconhecidas. Um "sim" que se tornou uma peregrinação na fé. Um "sim" que a impeliu a servir incondicionalmente. Ser Servo e Serva de Maria e não correr os riscos da fé, da aventura, parece-me uma contradição. Temo as comunidades acomodadas, as comunidades falsamente resignadas. Existe uma resignação evangélica que é justa e necessária, mas existe também uma resignação humana que é covarde e produto da nossa sociedade do bem-estar e do consumo. Nestes últimos anos, conheci várias comunidades que optaram pela aventura e partiram para novas terras. Leigos e Diaconias que enfrentam novas formas de serviço. Grupos seculares que vão ao encontro das novas expressões de pobreza. Frades que acreditam que nem tudo está terminado e que, antes de pensar na "ars moriendi", pensam no impacto carismático do nosso ser Servos de Maria, na arte de viver em plenitude. Tudo tem sentido. No início do terceiro milênio, o papa nos exortou a lançar-nos ao mar aberto, a correr com Jesus o risco da aventura. Lembrou-nos que não temos só uma história para contar, mas um projeto para trabalhar. Disse-nos que, na Igreja, nós estamos na vanguarda. Na mensagem ao capítulo geral de 2001, ele nos lembrou que devemos estar atentos aos sinais dos tempos, e a tomar em séria consideração a perspectiva de abandonar algumas atividades para ir ao encontro das novas instâncias missionárias na Ásia, na África e na Europa do Leste. Com Maria e seguindo o seu exemplo, temos o dever de tomar novas caminhos carregados de esperanças.
De quando em quando, recebemos direta ou indiretamente propostas, críticas, sugestões de irmãos e irmãs que, sem dúvida, estão preocupados com o futuro da Ordem. Algumas críticas são muito irônicas, outras parciais, outras ainda construtivas e outras, por fim, contraditórias. Nem sempre podemos satisfazer a todos, mas podemos garantir que tais críticas e sugestões não nos deixam indiferentes, que as tomamos em consideração e que procuramos avaliá-las. Sou do parecer que devemos concentrar nossa atenção principalmente nas críticas abertas e construtivas, nas menos localizadas, uma vez que a família não é só regional, nas que não se limitam ao mundo que as cerca. Todos somos "a base". A solução está em todos nós. A resposta é de todos e as perguntas também - como diz o poeta Rilke - devem ser amadas, porque não existe uma resposta para cada pergunta. É mister evitar em nossos julgamentos de valor o selo da infalibilidade pessoal e promover o espírito crítico construtivo, apresentando propostas factíveis e evangélicas, que partam da realidade e se orientem para um futuro iluminado por um verdadeiro discernimento dos sinais dos tempos.
O risco de aventura leva-me a pensar nas nossas origens e em toda a caminhada histórica da nossa família. Faz-me pensar na inspiração mendicante da Ordem, no mandato de viver a dimensão evangélica da precariedade, da insegurança e da disponibilidade para ir aonde as necessidades são mais urgentes (cf. Const. 3). Temos tantos testemunhos de vida de homens e mulheres da nossa família que souberam correr o risco da aventura e que hoje nos fazem recordar a importância de saber dizer sim a Deus e aos irmãos, à vida e aos acontecimentos da história, assumindo projetos de fé que nos permitam construir um futuro cheio de vida, um amanhã atual e alegre que nos mostre novamente a vitalidade do Evangelho, o Cristo eternamente jovem.
6. Mais um aniversário?
Sim, já estamos acostumados a celebrar aniversários. Gostamos muito de comemorações. Escrevem-se livros e ensaios de qualidade, de rigor científico e de acurada pesquisa histórica. Contamos com um patrimônio cultural e espiritual extraordinário. No entanto, quando nos referimos a um "aniversário", sempre perguntamos: O que queremos celebrar com este aniversário? Os 700 anos da aprovação definitiva da Ordem não deveriam ser apenas uma simples lembrança de 700 anos transcorridos desde a data do reconhecimento oficial da Igreja. Ademais, em 1304 a Ordem já tinha 70 anos de vida, de caminhada, de decisões, de constituições, de atos de pobreza, de espiritualidade e de figuras excepcionais em santidade e doutrina. De qualquer forma, penso que esses 700 anos nos lembram muitas coisas. Dentre elas, quero enfatizar as seguintes:
Nossa vida tem sentido, é uma vida significativa e "reconhecida" que, na Igreja e na sociedade, tem valor para os outros. Uma vida que se apresenta como algo que vale a pena reconhecer, como algo que existiu, existe e tem o direito de continuar existindo, principalmente se mantiver sempre vivos o sentido do seu ser e do seu agir, sua identidade colocada em ato, sua proposta e credibilidade.
Nossa vida está em sintonia com a Igreja, em cujo seio a Ordem nasceu e cresceu, porque - como eu dizia acima - o nosso carisma é um dom do Espírito que enriquece a Igreja, a nossa Igreja santa e pecadora, verdadeira e cheia de contrfadições, a nossa Igreja pequena e universal, muitas vezes prepotente, mas, ao mesmo tempo, instrumento de salvação. É no seio desta Igreja que devemos fazer valer o nosso carisma, que devemos ser o que somos e o que fazemos.
Nossa vida renova-se e, depois de tantos anos dedicados à reestruturação constitucional e à organização, talvez é chegada a hora de empenhar-nos mais na qualificação do nosso ser religioso, da nossa vocação, da nossa consagração, da nossa missão, assumindo um estilo novo, um novo modo de viver os valores perenes do Evangelho e as características essenciais do nosso carisma.
Nossa vida deve manter-se "um nível elevado". Não devemos baixar a guarda, nem nivelar-nos por baixo, nem ceder à mediocridade, ao comodismo, à resignação. Vale a pena ser fiéis à nossa vocação, fundamentados em Cristo, mantendo uma relação estável com o Único que dá pleno sentido à nossa vida. Devemos continuar sendo significativos, graças à nossa atitude de conversão, de caridade vivenciada e de coerência, e graças ao modo como prolongamos os sentimentos de Cristo, inspirando-nos em Santa Maria.
Devemos enfrentar com esperança as instâncias que nos preocupam e nos desafiam. Por exemplo: os nossos frades idosos com a grande riqueza de suas vidas, de suas experiências e talentos; os nossos frades jovens, cheios de medos e expectativas; os nossos leigos, com os quais devemos caminhar num clima de interação e reciprocidade; todas as expressões da nossa família religiosa OSM que trazem no rosto o perfil da nossa plena identidade mariana de Servos.
Não devemos intimidar-nos diante do diálogo, da colegialidade, dos projetos de vida, dos capítulos, das novas formas de serviço, da vocação missionária, das novas presenças, do mundo dos jovens, do compromisso pela justiça e pela paz, da prática da misericórdia, dos novos desafios da "piedade" mariana, das estatísticas, da diminuição dos recursos financeiros, da redução de estruturas, da formação sempre mais exigente, da especialização humanista, científica, cultural e teológica, das novas formas de governo, das comunidades interculturais...
Nossa família, depois de 700 anos, tem futuro.
Conclusão
E assim chegamos ao fim. Essas colocações talvez devessem ter sido ordenadas melhor, mas, por esta vez, deixemo-las assim, esperando que possam ajudar-nos a refletir. Estou convencido que a releitura das nossas origens, o retorno às raízes, a evocação deste aniversário, não são coisas que se referem ao passado, mas sim ao futuro. Não podemos continuar ancorados naquela espécie de "fundamentalismo estático", medroso, que nos impede de ser profetas. A vida, a nossa vida deve ser entendida como um "sonho", como um projeto, e não simplesmente como uma série de normas e de rubricas estéreis. O amor a Deus, ao homem e à mulher do nosso tempo é o que nos motiva em nosso modo de viver o Evangelho. Não vivemos em função de nós mesmos ou das nossas comunidades, mas sim em função do Reino, a começar da nossa vida fraterna, da verdadeira vida fraterna (Const. 111). Nossa Ordem nasceu como expressão de vida evangélico-apostólica, como uma comunidade de homens reunidos em nome do Senhor Jesus. Somos os enviados de Cristo para servir como testemunhas vivas do Evangelho (Const. 112). Como testemunhas e não como simples funcionários. A testemunha fala de Cristo, narra a história de Jesus de uma forma viva, encarna essa história, e encarna os seus sentimentos "revestindo-se" deles. Por isso, devemos caminhar mais com o povo, com os problemas do povo, e aprender a reconhecer no rosto dos outros a imagem de Cristo. Isso, sem dúvida, nos ajudará a "não dramatizar" tantos problemas abobados que temos e que criamos ao redor de nossas comunidades, de nossas províncias, de toda a nossa família religiosa. Isso nos ajudará a sair daquela vida burguesa e sem riscos que, muitas vezes, nos leva a esquecer que devemos conformar-nos a Cristo que veio para servir e dar a sua vida pelos outros (cf. Const. 2). Isso nos ajudará a ser misericordiosos, pois a misericórdia é uma das características dos Servos de Maria (cf. Const. 52), a fim de "inclinar-nos" com veneração diante da miséria humana e libertá-la do seu estado de prostração. Nessa caminhada, temos alguém que nos dá a mão. Desde as origens, nos dedicamos a ela, a bendita do Altíssima; nos inspiramos nela, a Mãe e Serva do Senhor; aprendemos dela, a mulher humilde; a honramos, porque é a Senhora nossa; procuramos imitá-la, porque é um eminente exemplo de criatura orante; e principalmente porque ela foi e é a imagem que nos guia em nosso compromisso de serviço, em nosso desejo de colocar-nos ao seu lado aos pés das infinitas cruzes nas quais o Filho do Homem continua sendo crucificado nos seus irmãos.
Que Deus nos conceda sabedoria e discernimento, e Santa Maria nos mostre sempre o caminho que leva a Cristo.
Roma, do nosso convento de São Marcelo,
aos 15 de janeiro de 2004
Memória do Bem-aventurado Tiago o esmoleiro.
frei Ángel M. Ruiz Garnica,
o.s.m.